Daniel Nogueira de Lima

Texto

Espaços em construção

- Eu existo sozinho – diz o poeta ao mundo.

- Não – diz o mundo – tu existes comigo. (Vilém Flusser)

 

Segundo o dicionário, “paisagem” é a extensão de território que o olhar alcança em um só lance. Ou seja, aquilo que é delimitado pelo olhar. Se no século 17 a pintura de paisagem se afirma como gênero artístico, só dois séculos depois ganha destaque, com a execução en plein air. A invenção da bisnaga descartável de tinta deu aos artistas naquele momento a possibilidade de observar a paisagem mais de perto enquanto trabalhavam. Com o Impressionismo, marco nesse processo, a observação direta da natureza fornecia novos indícios para a criação artística, principalmente através da ênfase nas impressões pessoais e sensações visuais imediatas de cada artista.

Hoje, com séculos de distância, a paisagem continua a despertar interesse. Principalmente a paisagem urbana. Aquela que pode ser a vista do retrovisor do carro, que se revela entre os prédios ou na distância do alto de um arranha-céu. É esse lugar construído e reconstruído a cada momento a partir de materiais novos ou usados, encontros e desencontros, e em constante movimento, que se apresenta como ponto-de-partida da produção de Daniel Nogueira. O paulistano se apropria de elementos urbanos e da própria paisagem da cidade.

A observação da cidade e dos seus fluxos foi o primeiro impulso da produção do artista. Alguns de seus estudos mais antigos, realizados entre 2000 e 2001, são desenhos feitos em papel craft cujas figuras são feitas a partir de escritos que identificam as partes do local observado. São como desenhos de observação da cidade, feitos com caneta esferográfica, onde as palavras que representam elementos da paisagem urbana, como poste, luz, lixeira e rua, se agrupam transformando-se em elementos gráficos que dão forma aos objetos que representam. No caso das ruas por onde os carros passam, palavras como “guia” e “rua” são escritas no sentido de tráfego dos carros.

Elementos fortes na paisagem da cidade, os postes de luz chamaram a atenção do artista, e já naquele momento passaram a ser personagens principais dos estudos. Os cabos de energia, responsáveis por levar energia para lojas, casas e espaços urbanos, foram transformados em linhas. Linhas públicas que se encontravam e se afastavam, revelando os movimentos da cidade e os traçados na paisagem urbana em desenhos, pinturas e gravuras feitos por Daniel Nogueira usando materiais como xerox, nanquim, esmalte sintetico brilhante, verniz naval, caneta de retro projetor e papel craft.

É em torno desse mundo traduzido em linhas[1] que gira a série de estudos feita com desenho em 2008, a partir das fotografias tiradas durante o ato de deslocar-se na cidade. As imagens de diferentes ângulos de uma esquina movimentada de São Paulo, como a das ruas Dr. Arnaldo e Cardoso de Almeida, foram simplificadas, deixando apenas as linhas verticais, localizadas onde estavam postes de luz, e as horizontais, marcando o lugar por onde antes passavam os cabos dos postes elétricos que cortam toda a cidade e as linhas imaginárias que podem ser traçadas ao infinito seguindo os caminhos de carros e pessoas que cortam a metrópole diariamente.

No mesmo ano, os elementos da cidade passam de objetos de estudo para matérias-primas. A partir de lâmpadas fluorescentes, fios, estruturas de metal e plásticos, objetos luminosos ganham forma no ateliê, que parece muito com uma oficina, ficando na fronteira entre pintura, desenho, escultura, objeto e instalação. Em trabalhos da série LLC (Lâmpada Luz Cor), objetos são feitos de luz e do que gera essa luz, ou seja, as lâmpadas e toda a fiação necessária para ligá-las, organizadas aqui de maneira caótica. Já nas séries PELS (Pintura Espaço Luz Sombra) e PLS (Pintura Luz Sombra) placas de madeira estruturam planos simples, como pequenas construções, que saem da parede e avançam para o espaço.

A série HOW, realizada em 2009 em homenagem à tradição construtiva brasileira – mais diretamente representada na figura dos Objetos Ativos de Willys de Castro, intervém na arquitetura. Aqui não interessa mais o objeto que interfere no espaço, mas a construção de uma nova arquitetura. Uma nova arquitetura não só nos espaços privados, em escala privada, mas também os espaços públicos e a maneira como lidamos com eles.

Há quase dois anos Daniel Nogueira começou a estudar energias renováveis. Até então, sua produção lidava somente com energia elétrica, vinculada à rede paga. O domínio na geração e uso de energia renovável abre um caminho de autonomia tanto para o artista quanto para seus trabalhos, que poderiam então mais facilmente lidar com a escala do mundo, ou mesmo ocupar o espaço do mundo. Talvez por isso ele tenha agora voltado parte de sua produção para o desenvolvimento de projetos de obras públicas, lidando diretamente com o espaço urbanos, e com a utilização de energia limpa.

Em Árvore branca, por exemplo, o uso público do espaço público é o elemento central. O projeto, ainda inédito, prevê a apropriação de uma praça em um grande centro urbano. Nela serão instaladas placas fotovoltaicas, suspensas por uma estrutura de barras de ferro e cimento, e braços de ferro. A energia solar captada pelas placas, é armazenada em baterias e essa energia é colocada a disposição dos freqüentadores da praça. Tomadas espalhadas pelo espaço permitem a ligação livre e sem custos de aparelhos eletrônicos como aparelhos de som, laptops, ipods, além de carregadores de celulares. A praça, um espaço de convívio por excelência tem essa característica pública reafirmada, e em alguns casos até mesmo resgatada pelo artista. Na dinâmica contemporânea, poucas são as pessoas ou os espaços que mantém a dinâmica de convívio com o outro, desconhecido, em um local público. Árvore branca começa a funcionar de fato não quando as placas captarem e as baterias armazenarem a energia dos primeiros raios solares, mas sim quando a população local se apropriar desse local e dessa energia naturalmente gerada, podendo inclusive estabelecerem novos usos para o espaço público.

Fernanda Lopes

São Paulo, junho de 2011


[1] Essa ideia já começa a aparecer dois anos antes, em 2006, em um DES PINT (Desenho Pintura) chamado MEFLI – o mundo é feito de linhas.

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[SEJA BEM VINDO]

“O que está claro é que não há escapatória para o artista não-figurativo; ele tem que permanecer dentro de seu campo e, como conseqüência, caminhar em direção da sua arte. Esta conseqüência nos leva, num futuro talvez remoto, em direção ao fim da arte como uma coisa separada do ambiente que nos circunda, o qual é a própria realidade plástica presente. Mas, este fim é ao mesmo tempo um novo começo. A arte não apenas continuará, mas realizar-se-a mais e mais pela utilização da arquitetura, escultura, e pintura, uma nova realidade plástica será criada. A pintura e a escultura não se manifestarão como objetos separados, nem em forma de “arte muralista” ou “arte aplicadora”, mas sendo puramente construtivas, ajudarão na criação de ambiente não meramente utilitário, mas também puro e completo em sua beleza.”

Mondrian. Retirado da página 17 do livro de Hélio Oiticica – ASPIRO AO GRANDE LABIRINTO.